D3 lança site para ajudar a esclarecer questões sobre as apps de rastreio de contactos

woman using mobile phone

D3 – Associação pela Defesa dos Direitos Digitais inaugurou publicamente o Rastreamento.pt, um recurso para ajudar a compreender as apps de rastreio de contactos, e para esclarecer a decisão de instalar ou não uma aplicação deste tipo.

 As apps de rastreio de contactos (ARCs) estão a surgir por todo o mundo como um recurso alegadamente necessário para o combate à pandemia. Em Portugal o assunto também está na ordem do dia, com a app Stayaway prestes a ser lançada. O próprio Primeiro-Ministro já afirmou que a irá instalar.

A D3 manifesta uma profunda preocupação com os riscos que estas apps implicam, já visíveis noutros países que optaram por mecanismos semelhantes. Mesmo utilizando um protocolo que visa salvaguardar a privacidade das transmissões da app, essa é apenas uma faceta do problema.

Esta fé – bem intencionada mas infundada – numa solução tecnológica que venha resolver os difíceis problemas que enfrentamos actualmente, que faz com que até o próprio Primeiro-Ministro afirme que vai instalar uma app que ainda nem está concluída, é compreensível. A angústia das pessoas perante os perigos da doença, a acentuada recessão económica e a incerteza do futuro fazem desesperar por uma solução mágica que pudesse acabar com esta crise que vivemos. Mas esse desespero não pode justificar a adopção de medidas e mecanismos cuja necessidade e adequação está ainda por demonstrar e que, em último caso, podem até piorar toda a situação.

Tem sido feita tábua rasa do problema dos falsos positivos. A tecnologia Bluetooth não foi criada para os fins em que está a ser usada neste contexto. A app poderá registar contactos entre duas pessoas separadas por uma barreira de acrílico ou mesmo uma parede – é que o Bluetooth atravessa paredes, como é possível comprovar facilmente ao ligar o Bluetooth no nosso telemóvel e ver a lista de aparelhos dos vizinhos. Uma notificação de contacto com pessoa infectada, fidedigna ou não, vai causar transtorno e ansiedade a qualquer pessoa que a receba. Com o problema dos falsos positivos, haverá milhares de pessoas a ser notificadas sem ter havido uma exposição real, resultando numa desnecessária corrida aos testes e um transtorno profundo das suas vidas pessoais e profissionais, provocadas pela suspeita de estar infectado quando é muito possível que não seja esse o caso. Um cenário ainda mais preocupante será o das pessoas que, apercebendo-se de tudo isto, ignorarem as notificações da app. Ambas as situações fazem-nos pensar se não estaremos melhor sem ela.

O carácter voluntário é pouco revelador só por si e deve ser questionado. Noutros países já existem casos onde as pessoas são obrigadas pela sua entidade patronal a instalar uma ARC, ou para acesso a serviços, bem como inúmeros relatos de pressão familiar ou de vizinhos para o fazer. Só existe verdadeiro consentimento quanto este é dado livremente, e muitos estão apreensivos quanto ao risco de se criarem situações onde deixa de haver escolha.

Ricardo Lafuente, Vice-Presidente da D3, aponta também: “Vários precedentes preocupantes podem também estar a ser introduzidos: o apelo à auto-denúncia da população, a massificação de uma app como forma de mediação social, gigantes tecnológicos como a Apple e a Google a imporem regras de funcionamento aos próprios Estados. Tudo isto em nome de uma app que, segundo os seus proponentes, só é eficaz se pelo menos 60% da população a instalar, um número que nunca será atingido num país em que apenas 73% da população tem smartphone com Internet“. E conclui: “Onde fica o princípio da proporcionalidade?

Estas e outras questões estão ainda por responder, e os proponentes da app não têm feito um bom trabalho no sentido de esclarecer e descansar a população sobre os riscos que elas acarretam e as consequências do ato de instalar. Como todos precisamos de respostas, a D3 criou o Rastreamento.pt como forma de ajudar cada uma e cada um a decidir se vale a pena ou não instalar este tipo de apps.

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por Redacção

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